terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Sermão sobre a Epifania


Epifania 

Celebramos há pouco o dia em que a Virgem imaculada deu à luz o Salvador dos homens e agora, amados filhos, a venerável Festa da Epifania vem prolongar nossa alegria. Assim, em meio às solenidades sucessivas desses mistérios que se aparentam, o ardor de nosso entusiasmo e o fervor de nossa fé não poderão arrefecer.

Na verdade, interessava à salvação de todo o gênero humano que a infância do Mediador entre Deus e os homens já fosse anunciada ao mundo quando ainda estava oculta numa humilde cidadezinha. Embora Ele tivesse escolhido o povo de Israel e uma só família desse povo para aí assumir a natureza comum a toda a humanidade, não quis esconder as primícias de Seu nascimento nos estreitos limites da habitação materna; mas quis ser logo conhecido por todos, aquele que Se dignara nascer para todos. Eis por que apareceu a três magos, em terras do Oriente, uma estrela de insólito fulgor, mais brilhante e mais bela do que os outros astros, e capaz de atrair facilmente o olhar e atenção daqueles que a observam, fazendo-os logo perceber que uma coisa tão extraordinária não podia deixar de ter sentido. Aquele que apresentou esse sinal tornou-o portanto compreensível aos que o viram; Ele os fez procurar aquilo que lhes deu a compreender e se deixou encontrar pelos que O procuravam.

Os três homens seguem pois a direção da luz celeste e ao caminharem, com o olhar voltado para o astro que os guia, são conduzidos pelo esplendor da graça ao conhecimento da verdade. Julgavam, conforme a razão humana, que se devia procurar na cidade real o nascimento do Rei que lhes fora anunciado. Mais Aquele que revestira a forma de servo[1] e não viera para julgar e sim para ser julgado escolhera Belém para o Seu nascimento e Jerusalém para a Sua paixão. Ora Herodes, ouvindo dizer que nascera um Rei dos judeus, atemorizou-se, suspeitando um sucessor; e tramando o assassínio do Autor da salvação, ofereceu hipocritamente seu auxílio. Como seria feliz se imitasse a fé dos magos, se pusesse a serviço da religião o empenho que consagrava à perfídia! Ó cega impiedade de uma inveja insensata, que julgas poder transtornar com teu furor o desígnio de Deus! O Senhor do Universo não procura um reino temporal, Ele que dá um reino eterno. Por que te esforças por alterar a ordem imutável das disposições providenciais e te adiantar num crime que será dos outros? A morte de Cristo não é para teu tempo. É preciso fundar antes o Evangelho, pregar antes o Reino de Deus, curar antes os doentes e fazer milagres. Por que queres seja teu o delito que será obra de outro? Não vais gozar do resultado desse crime, e te perdes só por tua intenção culpável? De nada te aproveitam esses planos, nada realizas com eles. Aquele que nasceu quando quis morrerá conforme a livre disposição de Sua vontade.

Os magos realizam pois o seu desejo e, guiados pela mesma estrela chegam até o Menino, o Senhor Jesus Cristo. Adoram o Verbo na carne, a Sabedoria na infância, a força na fraqueza e, na realidade de um homem, o Senhor de majestade. E para apresentarem uma homenagem[2] de sua fé e de sua compreensão, testemunham, por meio de dons, aquilo que crêem em seus corações. Oferecem incenso ao Deus, mirra ao homem e ouro ao rei, venerando conscientemente na unidade a natureza divina e a natureza humana, pois as propriedades de cada substância se reuniam numa só dignidade.

Tendo os magos voltado à sua pátria e Jesus sido levado para o Egito em virtude do aviso divino, a loucura de Herodes se exaspera em inúteis maquinações. Ordena a morte de todas as crianças de Belém e, como lhe era desconhecido o Menino que ele temia, inclui numa sentença geral a todos cuja idade torna suspeitos. Mas aqueles que um rei ímpio arranca do mundo, Cristo os introduz no céu; ainda não lhes proporcionara a redenção por seu sangue, mas já lhes concedia a glória do martírio.

Elevai portanto, amados filhos, vossos corações cheios de fé à graça cintilante da luz eterna e, venerando os mistérios que obtiveram a salvação dos homens, orientai vossos atos conforme o que foi realizado em vosso favor. Amai a castidade sem mancha, porque o Cristo é Filho da virgindade. Abstende-vos dos desejos da carne que combatem contra a alma[3], assim como o Santo Apóstolo, junto de quem estamos[4], nos exorta com as palavras que lemos. Sede crianças quanto à malícia[5], porque o Senhor da Glória quis ter uma infância semelhante à dos mortais. Praticai a humildade que o Filho de Deus Se dignou ensinar a Seus Discípulos.[6] Revesti-vos da força da paciência, na qual salvareis vossas almas[7], pois Aquele que é a redenção de todos é também a força de cada um de nós. Tende gosto pelas realidades do alto, não pelas da terra.[8] Progredi, constantes, no caminho da verdade e da vida; e não vos detenham as coisas deste mundo, pois os bens do céu vos esperam; por nosso Senhor Jesus Cristo, que vive e reina, com o Pai e o Espírito Santo, pelos séculos dos séculos. Amém.
  
NOTAS:
1 -  Fp.2,7.
2 - No texto: "sacramentum fidei intelligentiaeque".
3 - 1Pd.2,11
4 - São Leão falava na Basílica Vaticana, junto à confissão de São Pedro.
5 - 1Co.14,20.
6 - Mt.11,29.
7 - Lc.21,19.
8 - Col.3,2 
por São Leão Magno
fonte: "Sermões sobre o Natal e a Epifania"
Editora Vozes  -  Petrópolis, 1974

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

domingo, 20 de setembro de 2015

Parábola dos Talentos



No 16º Domingo após o Pentecostes, na leitura do Evangelho (Mat. 25, 14-30), a Igreja faz-nos ouvir a Parábola dos Talentos. Um homem de partida para o estrangeiro, confia a seus servos a administração de seus bens. Quando retorna pede contas desta gestão. Louva aqueles que tendo recebido cinco talentos ou dois talentos souberam duplicar esta soma. Mas reprova e rejeita "às trevas exteriores" o servo que esconde seu talento na terra e crê, assim, satisfazer as obrigações da justiça devolvendo exatamente o único talento que havia recebido.

Os bens que o mestre confia a seus servos significam os dons naturais concedidos por Deus a Suas criaturas: a saúde, a inteligência, a riqueza, etc... Tudo isto existe por Deus e para Deus; nós não somos senão intendentes encarregados de administrar os bens divinos. Mas os talentos significam sobretudo os dons sobrenaturais, a comunicação da vida divina aos homens, as graças que são derramadas sobre nós a cada instante. Esta Parábola, temos que reconhecer, é bastante assustadora. Pois qual dentre nós pode dizer ter conservado integralmente o capital de dons naturais e sobrenaturais recebidos de Deus? Não teremos abusado destas graças, não as teremos profanado e desperdiçado? Com mais razão ainda, qual dentre nós ousará dizer que manteve o depósito que lhe foi confiado, que duplicou ou triplicou-o? Está Parábola traz-nos ao mesmo tempo uma mensagem de rigor e bondade, e não temos o direito de suprimir um ou outro destes dois aspectos. Três frases da Parábola exprimem bem esta dualidade de aspectos e são aptas a fortificar em nós de um lado o temor e de outro a confiança filial. É primeiramente a frase insultuosa do mau servo: "Senhor, aprendi a conhecer-te como homem duro, que ceifas onde não semeaste e ajuntas onde não espalhaste. ...Assim, tive medo". O Mestre reprova-lhe a frase: "Mau e negligente servo, sabes que ceifo onde não semeei...". Parece que o erro deste servo é menos o de não ter feito frutificar seu talento do que o de ter em si uma concepção deformada, hostil e cruel de seu mestre. O que a frase sugere, sem entretanto dizer, é que se o servo tivesse falado de outra maneira, se tivesse dito: "Senhor, eu sei que tu és um mestre misericordioso, que sabes colher ali onde eu não soube semear... e é por isso, apesar do meu grande erro, que venho a ti com confiança" - o seu mestre o teria então perdoado. Outra frase de grande importância é esta: "A qualquer que tiver será dado... mas ao que não tiver até o que tem ser-lhe-á tirado". Muitos acham esta frase dura e incompreensível. Mas seu sentido é simples: um erro chama outro; uma boa ação chama outra; se cedes ao mal uma vez, torna-te-ás mais fraco, cederás outra vez, e outras ainda, e encontrar-te-ás numa ladeira escorregadia onde te será cada vez mais difícil parar, e perderás até o pouco que tinhas; ao contrário, o menor esforço em direção a Deus, ainda que pequeno, tornará mais fácil outros esforços, e quanto mais te esforçares, mais graça abundará, mais te será dado. Notemos enfim esta frase: "Bom e fiel servo... sobre o pouco foste fiel, sobre muito te colocarei". A fidelidade nas pequenas coisas é o primeiro passo do caminho, é a condição necessária à fidelidade nas grandes coisas. Se não sou capaz de grandes coisas, tentarei ao menos as pequenas. Se dilapidei os talentos que me foram confiados, recomeçarei humildemente, pacientemente, a ser fiel em todas as pequenas coisas, a ser honesto, puro, serviçal ao longo da vida cotidiana; sobre esta primeira fundação de pequenas coisas, Deus poderá construir algo maior, e um dia, talvez, eu ouça o convite: "Entra no gozo do teu Senhor".

A Epístola deste Domingo (2 Cor. 6, 1-10) continua a desenvolver o tema da Epístola do Domingo anterior. São Paulo aí descreve de novo o sofrimento e a força do Apóstolo"...nas tribulações, nas aflições, nas angústias sob os golpes, nas prisões, no fato de sermos tidos... como morrendo e eis que vivemos... como pobres mas enriquecendo a muitos... como nada tendo, nós que possuímos tudo". Mas o primeiro versículo da Epístola poderia fornecer uma conclusão apropriada à Parábola dos Talentos: "Nós vos exortamos a que não recebais a graça em vão". O versículo seguinte (e também os últimos versículos do capítulo 5 que não fazem parte da Epístola deste Domingo) precisa de qual graça trata-se aqui; a mediação de Cristo, a reconciliação com Deus por Jesus que fez-se "pecado" a fim de que pudéssemos nos tornar "justiça". Certamente, e essa é a nossa única esperança, Ele tomará nosso lugar para apresentar ao Pai, com abundância, os talentos que não soubemos fazer frutificar. Mas Ele não se encarregará de nossos talentos se não O considerarmos como o supremo talento, o único cuja aquisição por nós e o crescimento em nós são a condição de nossa salvação.

fonte: "L'An de Grâce du Seigneur"
Ed. du Cerf, 1988

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

O Ano Litúrgico


Duas semanas somente se passam entre a Festa da Dormição da Mãe de Deus e o fim do Ano Litúrgico. O ciclo do Ano Eclesiástico está quase completo. Um ciclo novo vai se abrir no dia 1º de setembro (14 de setembro, no calendário civil).

Muitos fiéis não vêem sem uma certa tristeza o término desse ciclo no qual eles estiveram seguindo Jesus Cristo desde Seu nascimento até Sua glorificação. Quando já se esteve próximo da Glória da Páscoa e do Pentecostes, de alguma maneira se tem a impressão de que o retorno ao começo humilde, à espera da Natividade, é uma diminuição. Se já atingimos a plenitude, porque retornar ao ponto de partida?

A condição humana é de tal ordem que não podemos nos estabelecer definitivamente em um estado máximo. Nós temos necessidade de reaprender os primeiros elementos daquilo que cremos saber. É somente por uma contemplação sempre renovada e sempre atenta da vida de nosso Senhor, em todos os seus aspectos, em todas suas vicissitudes humanas sucessivas, que nós poderemos ao menos entrever alguns reflexos do mistério de Cristo. Pois existem nossos pecados, nossas quedas. Uma alma enlameada não saberia se fixar nas radiações da Glória de Deus. É bom, é necessário que ela retorne a períodos de penitência e de expiação.

O retorno do ciclo litúrgico nos lembra também que a "salvação", no sentido do termo, é inseparável de um elemento histórico e pessoal. Ela não pertence à ordem puramente metafísica. Ela não é a comunicação de uma doutrina abstrata. Nós somos salvos porque "alguma coisa aconteceu", porque certos acontecimentos se passaram. O ano litúrgico comemora e renova misticamente esses fatos.

Cometeríamos um erro se identificássemos a plenitude do ano litúrgico com seu término glorioso. O mistério do tempo litúrgico é o mistério do próprio tempo: O tempo "distendido", torna imperfeito, múltiplo e sucessivo a atualidade eterna divina. Em Deus não existe que um só momento onde tudo está incluso. A plenitude do ano litúrgico não consiste no fato de que o ciclo comemorativo da vida de Cristo está terminado, acabado. Pois o término da série implica que a série existe, sucessão de elementos disjuntivos. A plenitude do ano litúrgico deve ser concebida qualitativamente e não quantitativamente. Ela é atingida se, em um dia qualquer do ano litúrgico, seja qual for, nós formos capazes de compreender, através do acontecimento particular comemorado, o Cristo por completo, toda Sua vida, toda Sua obra, toda Sua Palavra. Cada festa e mesmo cada dia do ano torna-se assim a plenitude de todo ciclo litúrgico. Esse ciclo não se repete jamais; cada um de seus aspectos reflete a inesgotável profundidade e plenitude de Cristo, e, na seqüência, torna-se-nos novo à medida em que compreendemos melhor. O ano litúrgico é um prisma que recebe a Luz branca de Cristo e a decompõe em diversas cores. O Cristo é o Ano.

fonte: “L'an de Grâce du Seigneur"
Les Editions du Cerf, Paris, 1988

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Dormição da Toda-Santa Deípara

 
Dormição da Toda-Santa Deípara
Afresco Monastério Sopotchani-Sérvia


A "Dormição da Mãe de Deus" não nos é contada pelas Sagradas Escrituras, mas seu relato foi conservado na memória da Igreja e está expresso no ícone da Festa e na Liturgia de 15 (28) de agosto, que nos trazem informações sobre esse mistério.

No ícone da Festa, Maria está deitada em Seu leito de morte; o Espírito Santo reune os Apóstolos de todos os cantos do planeta para que acompanhassem Maria em Sua morte. Os primeiros Bispos da Igreja também encontram-se diante d´Ela, as mulheres vêm venerar Seu corpo. Acima, no centro, por trás da cama mortuária, Jesus em glória veste-Se de luz, tendo em Seus braços uma criança. É a alma de Sua Mãe.

A alma de Maria recebe a forma de recém-nascido envolto em faixas pois que Ela nasceu no céu. Ela trouxe ao mundo o Filho de Deus, em Sua carne; Ela Lhe cedeu lugar à Sua humanidade a fim de que Ele pudesse nascer sobre a terra. Esse Filho - que tornou-Se Seu Filho - Lhe empresta por Sua vez Sua divindade para que Ela possa nascer no céu: "a glória do século futuro, o fim último do homem já estão realizados, não apenas em uma pessoa divina encarnada, mas também em uma pessoa humana deificada".

O Ofício da Dormição nos ensina que Maria passou da morte à vida, que pôde desfrutar da vida eterna sem ser submetida ao julgamento (Jo 5,24) pois a Mãe da Vida não poderia permanecer na corrupção. No dia 15 (28) de agosto nós festejamos, como uma ressurreição d´Aquela que, antes do Julgamento Final, antes da Ressurreição Geral, está desde hoje unida a Cristo: "nem o túmulo nem a morte tiveram poder sobre a Mãe de Deus, infatigável em Suas súplicas, inquebrantável na esperança em Suas orações. Pois que Ela é a Mãe da Vida, Aquele que repousou em Seu seio virginal A transferiu para a vida" (Kondákion, tom II). "os an­jos ficaram estupefatos ao verem a Dormição da Virgem; como ascenderá a Virgem da terra aos céus?" (Megalinário da IX Ode). Um dos textos de Vésperas nos diz que os Apóstolos assistiram a uma segunda ascensão da glória de Seu Filho.

Aquilo que já foi realizado em Maria está previsto no plano de Deus para cada um de nós. No final dos tempos, após o Julgamento Final, nós seremos vivificados, almas e corpos, diante da Face de Deus. São Paulo exclama: "semeia-se o corpo em corrupção; ressucitará em incorrupção. Semeia-se em ignomínia, res­suscitará em glória. Semeia-se em fraqueza, ressuscitará com vigor. Semeia-se corpo animal (quer dizer, corpo psíquico) , ressuscitará corpo espiritual." (I Co. 15, 42-44). Tal é a finalidade do Juízo Final: ele desagua na vida eterna, na Jerusalém Celeste.
 fonte: “Dieu est vivant", 
Éditions du Cerf, Paris, 1987