segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Os fundamentos teológicos da ética cristã


(...) Deus é o Alfa e o Ômega da vida humana, O Criador, o Redentor e a Realização última de toda existência pessoal. Toda pessoa é criada à imagem e semelhança de Deus (Gn.1,26-27). Toda pessoa sem exceção é apta à santidade e à teosis ou deificação: uma plena e eterna participação às energias divinas ou atributos divinos. É por esta razão que a Tradição Cristã põe tão fortemente o acento sobre o caráter sagrado da vida humana. Este caráter sagrado, uma vez ainda, tem sua origem em Deus e é concedido como uma pura expressão de Seu Amor (...) é Dom: o Dom da Vida própria de Deus e de Sua Santidade, que nos foi conferida independentemente de todo o mérito, valor ou realização pessoal. Isolada deste Dom, a vida é absurda, sem sentindo algum (...)

A Vida Moral; Liberdade em Espírito

O reconhecimento e a celebração de Deus como Mestre de nossa vida é o fundamento sobre o qual edificamos a compreensão e a esperança que levam à uma conduta cristã, uma conduta que se conforma à vontade divina e manifesta os atributos divinos: Justiça e Amor. A confissão de Deus como Senhor e Sua celebração na Liturgia da Igreja são, por esta razão, o fundamento da teologia moral cristã.

A problemática da teologia moral, que cria dilemas éticos em nossa vida cotidiana, provém do conflito existente entre a nossa confissão de fé e nossas “paixões”, os “impulsos da carne” que conduzem ao pecado e à separação com Deus, que é a fonte e a plenitude da existência humana. Sem esse conflito, nós conheceríamos pela nossa própria natureza a vontade de Deus e conformaríamos nossas atitudes e nossas ações à esta vontade. O pecado, portanto, resulta da autonomia humana conduzida ao absurdo que corrompeu nossa natureza criada e a capacidade natural de todos, em virtude da divina imagem na qual ela é investida, de conhecer, de amar Deus e de , então, obedecê-Lo acima de tudo.

Todos pecaram e destituídos estão da Glória de Deus” (Rm.3,23). Cada um de nós sofre os efeitos do nosso próprio estado de pecado. É por este fato mesmo que os mais santos dentre nós devem afrontar este conflito entre a razão e as paixões.

Atingir as qualidades de bondade, de amor, de misericórdia e de justiça requer uma disciplina – uma ascese ou um combate – de arrependimento contínuo. O movimento de “retorno” implicado pela metanóia ou arrependimento não pode, todavia, ser um retorno a nós próprios, à nossa própria natureza caída e corrompida; mas sim um retorno a Deus. A conduta ética cristã não pode ser pregada a partir de idéias ou objetivos humanos; suas condições e suas metas, tal como a própria vida humana, devem estar ancorados em Deus, o único que determina aquilo que é bom, justo e reto, e que nos revela esta determinação pela Escritura, a oração e outros aspectos da experiência da vida em Igreja.

O Amor Trinitário

Eis porque a ética cristã deve fundamentar-se sobre a Revelação. Se devemos  empreender um combate para conformar nossa vontade, nossos desejos e nossas ações à vontade de Deus, devemos então saber o que a vontade divina exige. De fato, como é que Deus gostaria que nós nos conduzíssemos? Se procurarmos a resposta nas Escrituras e no ensinamento – A Tradição – da Igreja, algumas indicações emergem. Uma dentre elas se destaca particularmente: “Deus é Amor”, como nos diz o apóstolo João (I Jo.4,7-12). Em conseqüência, nossas atitudes e nossas ações vão refletir o amor oblativo, sacrifical que resplandeceu de forma particular na crucifixão de Jesus Cristo, o Filho Bem-Amado do Pai.

Esse amor revelado é essencialmente trinitário, é uma comunhão de Dom dividida de maneira igual entre as Três Pessoas Divinas. Desta forma, ele é sempre “dirigido aos autores”, ele consiste de dom de si, oferecido livre e jubilosamente ao outro e para o outro. Nossa resposta a este amor é também uma resposta em comunidade. Ao saber que somos objetos da profunda e tenra afeição de Deus, oferecemos a Ele, de nossa parte, o nosso amor, pela nossa oração e nossa fidelidade aos Seus mandamentos. Ao mesmo tempo nós estendemos nosso amor ao outro (próximo), a todo “outro” que tal como nós mesmos traz nos recônditos da alma a imagem da divina beleza e da vida divina. Não há limites nem qualificações para tal amor. Ele deve estender-se igualmente e plenamente ao amigo e ao inimigo, ao ortodoxo e ao não ortodoxo, qualquer que seja sua identidade étnica, sua classe social, sua raça, sua religião ou seu sexo. Deus revelou-nos o Seu amor sem medidas; e este amor confere à cada ser humano um valor e uma dignidade infinitas. Todo “outro” é então digno do nosso amor, ele requer, mesmo, nosso amor. Olivier Clément o exprime de uma maneira simples, mas profunda ao dizer que “todo homem tem direito a uma compaixão infinita” (...)

A revelação da vontade do Pai no e pelo Filho e o Espírito é raramente específica no ponto de vista das ações particulares que devem ser levadas em certas situações concretas. À nossa época, onde inquietudes avançadas têm lugar na tecnologia biomédica, somos geralmente confrontados a decisões pelas quais parece-nos não ter diretrizes confiáveis nas fontes da revelação, compreendidas nas Sagradas Escrituras. Os Dez Mandamentos (ex. 20; Dt.5), as Bem-Aventuranças (Mt.5; Lc.6) e outras regras de vida similares (cf: Ef.5; Cl.3) assim como os ensinamentos específicos de Jesus, de Paulo e de outros autores apostólicos (como por exemplo a respeito do casamento e divórcio: Mt. 19, 3-12; ICo. 7, 10-16; ou sobre a Ressurreição e o Julgamento: Mt. 25, 31-46; Jo. 5, 19-29; ICo 15, 34-58) nos fornecem condutas preciosas apesar de seu pequeno número, para tomadas de decisões éticas. Elas “condenam” certas atividades (tais como a idolatria, o matar, o furto, o adultério) e nos prescrevem outras atividades (a pureza, de coração, a reconciliação, a caridade).

A Reflexão Ética deve proceder da Fé Cristã
Se atualmente há tanta confusão quanto à tomada de decisões éticas, não é apenas em virtude da novidade e da complexidade das questões que devemos afrontar mas, primeiramente, porque a disciplina da ética foi isolada de suas raízes teológicas. Se ela deve constituir uma “teologia moral” autêntica, a reflexão ética deve proceder da Fé da Igreja e exprimi-la. Ela deve começar e terminar com a convicção de que somente Jesus Cristo é o Caminho, a Verdade e a Vida, o domínio e o próprio fim de toda ação ética, tão específica ou tão trivial que ela possa parecer. A ética é a teologia aplicada, a teologia em atos. Em tanto que tal, ela encontra seu tratamento mais fundamental e mais eloqüente nesta exortação que nos é familiar e que conclui numerosas Litanias da Liturgia Ortodoxa, ... “entreguemo-nos todos, e cada um de nós, em cada instante da nossa vida a Cristo nosso Deus”.

Ao proceder desta maneira, deveríamos ser capazes de indicar como a tradição bíblica e patrística podem exprimir-se diretamente e com força acerca das questões de ética que aparecem tão complexas aos dias de hoje. A questão fundamental a guardar o espírito é esta: de que maneira princípios teológicos abstratos podem ser aplicados com benefícios em “momentos éticos” específicos, sobretudo quando decisões de vida e de morte devem ser tomadas? De outra forma perguntamos: como que os princípios de nossa fé podem nos ajudar a discernir a vontade de Deus em situações concretas, e a empreender ações que se conformam à esta vontade divina, para o nosso próprio bem-estar e o daquele por quem somos responsáveis? (...)

A Pessoa Humana: Da Imagem à Semelhança
A pessoa humana é a mais sublime expressão da atividade criadora de Deus. Adão e Eva; homem e mulher, são criados à imagem e à semelhança de Deus (Gn. 1,26). Deus é a origem e o fim da vida humana criada. Sua “imagem” é realizada nos seres humanos, não só através dos atributos ou capacidades particulares (O amor, a razão, etc..), como pelas qualidades pessoais, distintas que põem os humanos à parte ou acima de todos os outros seres corporais. A “Imagem de Deus no homem” é identificada, segundo alguns teólogos gregos ortodoxos de hoje (Yannaras, Zizioulas, Nissiotis, Nellas) com a “personalidade” humana: a capacidade divinamente conferida por Deus de relação com Deus, consigo próprio e com os outros, exercida na liberdade e no amor.

Se somos, de fato, obrigados, como o afirma Yannaras, a prestar contas na vida moral da “aventura existencial de nossa liberdade”, é porque a queda (compreendida individualmente e coletivamente) nos força, de forma permanente, à uma situação de escolha. Pertence à nós a livre decisão de nos rebelarmos contra a vontade de Deus, que nos exilou do paraíso. A criatura humana, segundo São Basílio “é um animal que recebeu a ordem de tornar-se deus” (citado por São Gregório de Nazianzo, In Oratio 43). Todavia ao sucumbirmos à tentação, alienamo-nos de Deus e traímos nossa vocação por excelência. Em Cristo, temos a possibilidade de progredir de “glória e glória” (II Co. 3,18) à uma plena e perfeita comunhão com a vida divina que aporta à humanidade (a personalidade autêntica) seu fundamento indispensável. No entanto a necessidade constante de escolher entre a luz e a verdade de uma parte, as trevas e o engano de outra, nos põe em um combate interior incessante contra as tentações demoníacas e nossa tendência a auto idolatria. A ascese autêntica é então essencial para nosso crescimento na via da salvação.

Isto quer dizer que a iniciativa de Deus deve encontrar a resposta do homem, pelo exercício da vontade humana – pelo arrependimento, a oração e as obras de caridade – que nos tornam aptos, enquanto portadores da divina imagem, a progredir através de um processo de purificação e de santificação interior, ao atingir da divina semelhança. São Diádoco exprime tal resposta ascética baseada sobre o amor, por meio de sua eloqüência costumeira: “Nós todos, os homens, todos nós somos feitos à imagem de Deus; mas ser à semelhança de Deus é próprio somente àqueles que, por muito amor, subjugaram a Deus sua liberdade. Quando, em efeito, nós não somos mais  nós mesmos, eis que então somos semelhantes àquele que nos reconciliou com Ele pelo amor” (Discursos Ascéticos) (...)

A Consciência e o Discernimento
A vida moral está enraizada na esperança inabalável da glória que São Paulo descreve como “O Cristo está em nós” (Cl. 1,27). É a vida assumida, como um Dom sagrado, vivida na liberdade do Espírito e destinada a ser eternamente dividida na glória do Cristo. “Ora o Senhor é Espírito; e onde está o Espírito do Senhor aí há liberdade. Mas todos nós, com cara descoberta, refletindo como um espelho a Glória do Senhor, somos transformados de glória em glória na mesma imagem, como pelo Espírito do Senhor” (II Co. 3,17-18). (...) Nós temos muito a aprender dos escritos de São Máximo o Confessor, que declara: “Não trateis a consciência com desprezo, pois ela sempre vos aconselha a fazer o melhor. Ela põe diante de vós a vontade de Deus e dos anjos; ela vos liberta das concupiscências secretas do coração; e ao deixar esta vida ela vos concede o Dom da intimidade com Deus” (Terceira centúria sobre o Amor, 80).

São Máximo descreve a consciência como uma amiga íntima, uma amiga que nos aconselha em fazer o melhor, nos revela a vontade de Deus, nos protege e nos liberta da influência corruptora de nossas próprias razões e de nossos sentimentos ou “paixões”. Mais comovente ainda São Máximo descreve a consciência como uma mediadora que toma a nossa defesa e que nos protege antes que venha o julgamento de Deus. Ao mesmo tempo, ela põe o fundamento de nossa comunhão eterna com Deus na medida onde ela nos guia para tornarmo-nos “perfeitos” como nosso Pai Celeste é perfeito (...)

Muitas questões nas quais somos confrontados no domínio da bioética, ou não admitem solução alguma específica ou não receberam da parte dos teólogos e de outras pessoas com autoridade na Igreja a atenção necessária para fornecer as respostas claras e definitivas que nós buscamos. Mesmo as tentativas mais sinceras para analisar tal ou tal questão em termos de prescrições eclesiásticas nos deixam um sentimento de frustração impotente. Uma decisão, pode ser critica, pode ser uma questão de vida ou morte, deve ser tomada e nós não temos recursos para decidir de uma maneira que “pareça justa” ou que se conforme manifestamente àquilo que nós sabemos ser a vontade de Deus. Geralmente, de fato, a vontade de Deus não é totalmente clara e a tentação pode ser simplesmente deixar cair os braços em sinal de desespero.

Uma Consciência Conforme ao Espírito da Igreja
As decisões que somos levados a tomar concernem preocupações banais do domínio do cotidiano ou um julgamento de vida ou de morte onde com pouco ou até mesmo sem tempo algum temos para refletir e aconselharmo-nos; essas decisões só podem ser fiéis ao objetivo divino na medida em que elas são essencialmente decisões eclesiais tomadas sobre a base de uma consciência que se conforma ao espírito de Igreja.

Isto quer dizer, igualmente, que as decisões críticas que talvez venhamos a tomar devem ser, de fato, tomadas ao interior da comunidade que é a Igreja. É a comunidade dos vivos e dos mortos, dos “santos” de todos os tempos que conosco estão no corpo de Cristo universal. De uma parte, nos dirigimos a eles para pedirmos conselho pelo diálogo pessoal ou pelos escritos que eles deixaram. Quantos dentre nós, nos dias de hoje, encontraram uma inspiração nova e cheia de Graça ao ler textos deixados por Nicolau Motovilov (que transcreveu suas conversações com São Serafim de Sarov sobre a aquisição do Espírito Santo), o Padre Alexandre Eltchaninov (presbítero da emigração russa, morto em 1934, autor de um Jornal Espiritual), ou ainda São Siluan o Athonita (monge russo da Santa Montanha, que repousa em 1938, sendo canonizado em 1988). De outra parte,  pedimos a oração dos santos, sua intercessão por nós, a fim de sermos guiados como convêm. Pedimos para sermos guiados pela inspiração da Graça e pelo poder do Espírito Santo, a fim de agirmos conforme à vontade de Deus para nós próprios e para todas as outras pessoas concernentes.


Através de nosso batismo nos tornamos “Membros Uns dos Outros”
Isto quer dizer que jamais tomamos decisões éticas sozinhos. Nossos julgamentos morais e as ações que daí procedem intervêm sempre ao interior do corpo vivo da Igreja. Através de nosso batismo somos incorporados uns nos outros, tornamo-nos “membros uns dos outros” (Rm.12,5). As decisões que eu tomo afetam e influenciam o corpo (por inteiro). Assim como o meu próprio pecado tem conseqüências não somente para minha família e meus amigos, mas também para a comunidade eclesial no seu conjunto, tais como minhas decisões éticas e sua conseqüências implicam e afetam a totalidade da “comunhão dos Santos”. O aspecto positivo, a maravilhosa promessa desta verdade: eis que posso apoiar-me sobre o corpo todo para assistir-me e guiar-me nas decisões críticas graças ao amor que me testemunham seus membros, à sua solicitude, sua implicação pessoal e, sobretudo, sua oração.

Temos toda a necessidade, sendo clérigos ou leigos, de construirmos para nós-próprios “fontes de sustento” pessoais compostas de experientes e confiáveis amigos próximos que podem nos aconselhar e nos avisar quando temos que tomar decisões capitais. Isto quer dizer também que devemos, enquanto membros da Igreja, reconhecer e aceitar nossa responsabilidade de uns para com os outros, a fim de assegurar a assistência, o conselho e a intercessão necessários. Quando a morte ameaça, ou uma doença crônica leva um de nós à depressão e ao desespero, ou quando um casal de amigos toma o caminho do divórcio, muito geralmente temos a tendência a ignorar o problema. Nós não “queremos nos intrometer”. É a mesma atitude de autoproteção, transposta no contexto paroquial, que nos faz recuar, quando vemos alguém deitado sob o leito do desespero. Desde então, não nos admiremos que os especialistas ortodoxos da teologia moral sintam-se obrigados a desenvolverem uma ética fundada sobre o imperativo do Dom de si e do amor sacrifical.

No fim das contas, há uma única razão pela qual os cristãos aceitam a “via estreita” que implica o fato de viver segundo as regras de uma moral. Se escolhermos o amor oblativo no lugar do hedonismo, Deus no lugar de Manon, é porque somos fundamentalmente convencidos – sobre a base de nossa própria experiência assim como a partir do testemunho dos outros que Deus, Ele próprio, é Amor, que Ele é em verdade o Autor e o Fim de nossa vida, que somente Ele confere o sentido desta vida, objetivo e valor. Ele está, então, intimamente presente em cada crise que passamos e em cada escolha que fazemos. Tais crises e tais escolhas são o nosso lote cotidiano. Elas não podem ser evitadas, pois recusar decidi-las é então recusar agir, o que é em si uma falta moral.

Quando acontece, o que é freqüente, de não podermos discernir a vontade de Deus em dada situação, então nos lembramos que Satanás o tentador, trabalha mais eficazmente através de nossa confusão, nossa frustração, nosso desespero. Quando nos sentimos obrigados a tomar uma decisão que tem conseqüências sérias, mas os elementos necessários para discernir a vontade de Deus nos faltam, então devemos recuar e recordar que isto é realmente um jogo. Devemos encontrar a intuição dos grandes ascetas da Igreja: momentos assim críticos em nossas vidas são campos de batalha, arenas do Espírito nas quais a mais importante decisão que possamos tomar é de nos remetermos nós próprios e os outros, também participantes, entre as mãos de Deus que é bom e misericordioso.

Confiar toda nossa vida a Cristo nosso Deus
Tudo isto sugere uma conclusão paradoxal, mas inevitável: que nós podemos saber com certeza que tal decisão moral é conforme à vontade de Deus e representa a “boa escolha”. O que importa verdadeiramente é que em nossas deliberações morais, geralmente angustiantes (que concernem, por exemplo, a conduta  apropriada ao tratamento destruidor de um narcótico), rejeitamos a orgulhosa tentação que nos faz afastar do controle das operações, no lugar de “entregarmo-nos todos e cada um de nós em cada instante de nossa vida a  Cristo nosso Deus”. Isto não quer dizer que renunciamos à nossa liberdade ou que nós abdicamos de nossa responsabilidade. Isto significa que damos a Deus aquilo que é de Deus, e precisamente “toda nossa vida”, isto inclui nossos motivos e nossos desejos assim como nossas escolhas e nossas ações. E fazemos isto com a convicção inabalável que em toda situação onde o amor governa nosso comportamento, Deus pode tirar de nossos erros e de nossos maus julgamentos o que de necessário para realizar seu desígnio. A Fé da Igreja é que a vontade de Deus governe todas as coisas. A essência da vida moral cristã consiste então em submeter nossa vontade própria à vontade de Deus com a fervorosa oração “Sua vontade seja feita”.


Este ato de total submissão é necessário, que nos sintamos, ou não, conscientes de partilhar o espírito do Cristo e de aí conformar todas nossas decisões e nossas ações. Isto requer um profundo ato de fé e uma grande dose de humildade para admitir nossos próprios limites quando realizamos escolhas morais e remetemos este processo de tomada de decisões em boas mãos. É necessário humildade e confiança para dirigir-se ao próximo e lhe suplicar de nos acompanhar e assistir com seu amor e intercessão. É isto precisamente o que nos é pedido enquanto membros de um corpo e membros uns dos outros. A primeira e a última decisão que temos de tomar é, então, a decisão de submeter nossas deliberações morais àquele que é a cabeça deste corpo, com firme propósito de que todas as ações que nós realizamos em toda situação dada são para a Sua Glória, para a salvação daqueles que Ele confiou aos nossos cuidados. (...)

pelo Padre Jean Breck

sábado, 9 de dezembro de 2017

Por que ser cristão?


O entrevistador é Mark Makarov, evangelista americano, animador de uma emissão de rádio com a participação telefônica ao vivo.

MAKAROV: Padre Alexandre, gostaria muito de lhe fazer uma pergunta que me foi colocada por vezes. É necessário ser cristão e, se a resposta for afirmativa, por quê?

MEN: Só existe uma resposta a esta pergunta, penso eu, e ela consiste no fato de o mundo ter sempre buscado a Deus; é a condição humana normal de se engajar de uma forma ou de outra com aquilo que lhe é mais elevado, com um ideal – mesmo até quando o espírito do homem deforma ou minimiza o ideal ou o transforma em uma busca puramente civil. Tomemos a época do Stalinismo, do Maoismo ou de todo outro movimento em ‘ismo’ e veremos que quando privamos, pela força, o povo de sua busca de Deus, o povo reconecta sempre uma pseudo-divindade. A idolatria substitui a fé mas a aspiração instintiva a Deus permanece. No entanto, vejamos porque devemos ser particularmente cristãos.

MAKAROV: Talvez por causa da Bíblia?

MEN: Todas as religiões têm seus livros sagrados, alguns são plenos de sabedoria, de poesia, se profundidade espiritual. Muitos livros sagrados do Oriente, por exemplo naqueles da Índia, o Mahabharata, a parte que chamamos de Bhagavad Gîtâ, sem esquecer os Sutras budistas, contêm um tesouro e conhecimento e são escritos magníficos. Então o que pode ter de outro?

MAKAROV: A arte cristã?

MEN: Hoje na Rússia, as pessoas se tornaram entusiastas por nossa arte medieval. Eu mesmo a admiro muito, mas para mim se trata de um aspecto de nossa cultura espiritual. Se olharmos objetivamente, sem subjetividade, que não seja minha fonte pessoal, então a arte da Grécia antiga também é religiosa, a arte indiana é espiritual, (...) e as religiões são repletas de belíssimos edifícios antigos (e modernos) e assim o Cristianismo não pode se ostentar de um privilégio neste domínio. Logo, devemos nos perguntar, mais uma vez, por que o Cristianismo?

MAKAROV: A moral cristã?

MEN: Sim, de acordo. Estou muito satisfeito pelo fato de em nossos dias os valores morais do Cristianismo sejam reconhecidos em nossa sociedade. Mas, devemos admitir que é tudo simplesmente falso e não passa de propaganda para sugerir que não existem valores morais fora do Cristianismo (...) não é o momento de enumerar os princípios morais de todas as sociedades, mas não restam dúvidas que se encontrará também todas as ideias fundadoras da ética nos escritos dos estóicos e dos budistas, bem como no Antigo Testamento que, ainda que tendo dado a luz ao Cristianismo, é em verdade uma religião pré-cristã. (...) Existe uma severidade no Antigo Testamento que certas pessoas na Rússia estimam ausente no Novo Testamento. No entanto, esta ideia é aberrante, pois nosso Senhor Jesus jamais foi sentimental, sendo na maioria das vezes severo em Seus Mandamentos. Devemos ler os Evangelhos com óculos de rosa para não ouvirmos dizer: “Ai de vós escribas e fariseus!” ou “Afastai-vos de Mim, malditos, para o fogo eterno!” (Mt. 23 13, 25, 41). Isto não inspira sentimentalismo.

É claro, a ética cristã tem seus traços particulares. Mas se alguém do exterior chegasse e fizesse uma comparação da ética cristã com aquela, digamos, dos estóicos – por exemplo, Épicuro, Epicteto e outros Sêneco, que viviam na época dos Evangelhos – esta pessoa encontraria muitas aproximações com os Evangelhos – ainda que os filósofos gregos jamais os leram.

Então, ainda, por que o Cristianismo? Devemos admitir no fim das contas a ideia do pluralismo religioso? A ideia que Deus Se revela podemos conhecer em não importa qual forma de religião? Neste caso, podemos fazer seu luto da unicidade do Cristianismo; seu luto da fé cristã.

Mas, retornemos à questão central: parece-me que nada pode demonstrar o caráter único do Cristianismo com exceção de Jesus Cristo. Estou convencido de que todos os fundadores de grandes religiões nos falam em verdade. Lembremos o que disseram.

Buda disse ter atingido um estado de despojamento completo após longos e difíceis exercícios. Podemos crer nele? Sim, podemos. Era uma personalidade fora do comum e realizou isto com certeza.

Os filósofos gregos falam da dificuldade intelectual de atingir a ideia de Deus e do mundo espiritual. Isto é verdade. Ou então Maomé. Que dizia que diante de Deus sentia-se como um nada, que Deus o havia tomado e que diante de Deus ele não passava de um mosquito. Podemos crer nele? Mas é claro que sim!

Ou então: Somente dentre estes mestres, aquele que fala em seu próprio nome como Deus Ele-Próprio: “Mas Eu vou digo” (Mt. 5, 22) ou como está escrito em João: “Eu e o Pai somos Um” (Jo. 10., 30). Nenhum destes grandes mestres das religiões do mundo jamais disseram algo parecido. Esta é então a única ocasião na história em que Deus Se manifesta em toda Sua plenitude por uma pessoa real. É isto que encontramos nos Evangelhos.

Jesus, o predicador da moralidade – é um mito histórico. Não O teríamos crucificado somente por isto. Jesus, o Messias, auto-proclamado? Por que então não crucificamos Bar-Cochba, que também dizia ser o Messias? E existem muitos falsos Messias! O que tinha em Jesus que provocava tanto amor e tanta raiva? “Eu sou a porta”, dizia Ele, a porta à eternidade (cf. Jo. 10, 9). Parece-me que tudo que tem valor no Cristianismo o tem pelo fato de provir de Jesus Cristo. O que não é de Cristo poderia muito bem ter vindo do Islão ou do Budismo.

Cada religião é um caminho a Deus, uma especulação concernindo Deus, uma aproximação humana a Deus. É um vetor que se dirige ao alto. No entanto, o advento de Cristo é a resposta, um vetor vindo do alto em nossa direção. Por um lado, um acontecimento situado na história, por outro, algo que ultrapassa completamente a história. É a razão pela qual o Cristianismo é único, porque Cristo é único. Eis a minha resposta à questão.

MAKAROV: Pensemos agora aos auditores que numa encruzilhada se perguntarão: “E então, mas como verificar que Cristo era realmente aquilo que Ele dizia ser? Como posso ter a certeza de que a Bíblia diz a verdade? Como posso me situar face a diversas religiões? Qual será a minha resposta aos meus pais ateus ou aos meus professores ateus, o que direi aos devotos de Hare Krishna que dançam nas praças? Por que deveria vir a Cristo? Simplesmente porque o Padre Alexandre Men ou Mark Makarov ou alguém mais pensa que a Bíblia diz a verdade? Como posso saber se eles têm razão?

MEN: Bom, no caso de uma pessoa que já tenha uma ideia do que é a religião, a minha resposta poderia muito bem vir a ser o quê disse: podemos acreditar em todas as religiões. Se cremos que Deus Se revelou a Maomé porque fazer uma exceção para o fundador do Cristianismo e rejeitar o que Ele disse? Se cremos que Deus Se revela, então Ele o faz de diferentes maneiras a todos e a cada um em particular. E eu creio que Deus está obrando em todos os grandes mestres e não existe possibilidade para dizer: “Mas rejeitamos este Jesus Cristo”. Não, eles são todos verdadeiros e isto quer dizer que Jesus diz a Verdade quando fala de Si-mesmo: “Eu e o Pai somos Um” (Jo. 10, 30).

No entanto, no caso de uma pessoa sem sensibilidade religiosa alguma, eu responderia então com as palavras do Evangelho – lembrai-vos do que os Discípulos disseram a Natanael: “Vem e vê” (Jo. 1, 46). Quer dizer, cabe a nós ver e sentir, experimentar (fazer a experiência). Os matemáticos não podem demonstrar a beleza da Nona Sinfonia de Beethoven ou de um grande quadro, ou da “Trindade” de Roublev. Devemos, primeiramente, ouvi-lo, vê-lo, encontrar interiormente – dessa mesma forma devemos buscar o Cristo e tentar encontrá-Lo. Sem este encontro, nenhum sistema de provas não poderá convencê-lo, o sistema permanecerá esquemático e sem vida. Cremos em Cristo não porque nos disseram que devemos crer, mas porque estas palavras nos convidam a “vir e descobrir”.

A fé vem ao receber a palavra, diz o Apóstolo Paulo. Lembrai-vos da reação dos samaritanos quando a mulher lhes diz: “Eis um homem que me disse tudo que tinha feito”. Eles estavam maravilhados, mas quando se dirigiram eles mesmos e que eles ouviram Jesus, então concluíram: “Agora compreendemos, não pelo fato de nos teres dito, mas por causa de nossa experiência pessoal” (Cf. Jo. 4, 42).

Eis a aproximação científica, verdadeiramente científica. É um fato que a ciência sem a experiência não pode avançar muito longe. No que concerne a crença religiosa, a experiência tem um papel enorme. Trata-se, todavia, de uma experiência interior, espiritual. Eis a realidade que os seres humanos devem fazer a experiência. Se queremos exprimir uma opinião sobre tal realidade sem ter tentado encontrá-la, só poderemos fundamentar nossa opinião sobre informações parciais. Só podemos ver Jesus com o coração, não podemos aprender cientificamente nada sobre Ele, por meios estritamente exteriores; o fato de Ele ter verdadeiramente existido, Seu meio e por ai vai... São questões importantes, mas secundárias à fé.

MAKAROV: O que dizer a estas pessoas – e elas são numerosas – que absorveram a educação atéia a tal ponto que ao nos escutar, elas pensam: “Seria muito bom que tudo fosse como você diz, mas é claro que todo mundo sabe que não existe Deus algum!”

MEN: Eu penso ao contrário, todo mundo sabe precisamente o contrário. Como disse no início, o número de pessoas que deixaram a Deus e se viraram a adoração de ídolos demonstra que o mundo não pode existir sem Deus – incidentemente, Mao Tse-Tung compreendeu muito bem isto. Deus é ponto de partida de tudo. Os seres humanos vivem neste mundo somente porque creem num sentido do mundo. Albert Einstein disse que aquele que não crê no sentido da existência não está apto à vida. Logo, os ateus que dizem não crer no sentido da existência, nas profundezas de suas almas, em seus sub-conscientes, creem, mas enterram suas crenças sob outras etiquetas.

As pessoas têm sede de água porque isto é uma necessidade – é um fato objetivo. Eles têm necessidade de alimento – é um fato objetivo, como muitos outros – e não tem nada de imaginário. Se as pessoas sempre têm sede de encontrar um sentido superior à existência e venerar este sentido, de orientar suas vidas em função deste sentido, isto quer dizer que esta necessidade não é uma patologia, mas a condição normal da humanidade.

Quando olhamos para trás, vemos que sempre, ao longo dos séculos, Deus estava presente de uma forma ou de outra. Acabo de pensar no fundador do positivismo, Augusto Comte. Ele rejeitava os valores superiores, embora não de forma agressiva, e ele falava de Deus como qualquer coisa de desconhecível e ao sujeito do qual não podíamos dizer nada. Ele morre de joelhos diante de um altar, mas este altar era a poltrona onde se sentava a mulher que ele amava, que estava morta. Ele prodigalizava respeito e veneração a esta poltrona. Ele foi, incidentemente, o primeiro a propor a ideia e um templo dedicado à humanidade – o ‘grande ser’ – a parte da grandiosa na humanidade, que deveria ser venerada. Se examinamos a história de todas as pseudo-religiões, veremos então que este sentido do sublime é verdadeiramente inextinguível, essencial à humanidade. (...)

pelo Padre Aleksandr Mien
1992 (Moscou)

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Pequena bússola espiritual para nosso tempo


“A Europa ocidental está diante da escolha entre o nada e a santidade, entre a loucura e a Trindade...O que poderia subsistir das sociedades ditas cristãs se afunda ou se interioriza. Toda uma juventude cresce, ávida por uma simples fé, simplesmente exprimida...”

Como assumir plenamente sua vocação de leigo a seguir a Cristo, “em Cristo”? Que lugar dar à oração, à amizade? O cuidado dos pobres, o diálogo com outras religiões e as confissões cristãs? E sobretudo, uma conversão do olhar, uma benevolência do coração... “Somente o Cristianismo, por vezes profundo e generoso, pode constituir a bússola que nos permitirá de navegar sobre o oceano deste mundo difícil e complicado”, estima Olivier Clèment num pequeno volume das edições Desclée de Brouwer, sob o título Petite boussole spirituelle pour notre temps.

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O laicato é a normalidade na qual estamos mergulhados. A sociedade secular é, de certa forma, nosso ambiente, o ar que respiramos mesmo quando dormimos. Ser cristão hoje parte de lá.

Todo leigo (do grego laikos) é membro do laos, do povo, na ocorrência do povo de Deus. Batizado, ungido do Espírito (crismado), ele é “rei, sacerdote e profeta”. Rei, por tentar dominar seu destino na luz de Deus, de ordená-lo no sentido profundo da palavra; sacerdote, por fazer oferenda dos seres, das coisas do mundo; profeta, por inscrever um outro lugar na vida cotidiana dos homens e, por lá, lhes abrir o porvir.

Não pode haver profissionais do Cristianismo, neste aspecto. Cremos nas épocas de Cristandade, com o papel de direção dado ao clero, aquele de inspiração e de exemplo dado aos monges.

Todavia hoje, em nosso país, percebemos que o clero não é mais uma oligarquia privilegiada, mas que se compõe de homens que se definem como servidores, abaixo ou ainda acima dos outros. Quanto ao monaquismo, ele constitui sempre, como dizia São João Crisóstomo, uma “santo desvio”, tornado necessário pelo emparvecimento do mundo cristão. No século XIII, por exemplo, quando todo Ocidente estava batizado, converter-se significava tornar-se monge. Hoje, isto significa antes de tudo tentar tornar-se cristão, quer dizer, se empenhar seriamente na Igreja, no serviço de Cristo, e então, na força da Ressurreição, no serviço dos outros.

A distância, desqualificadora para os primeiros, entre os leigos e os monges, tornou-se hoje a distância (que não é desqualificadora para ninguém) entre ateus, agnósticos, etc., e cristãos que tentam vivem seu Cristianismo.

Um leigo cristão é, logo, plenamente responsável (com todos os outros, “uma voz no coro” como dizia Siniavski) da Igreja e de seu resplendor. Logo, é bom que mesmo apesar de difícil ele esteja mergulhado na secularidade, da qual ele pertence um pouco, pelo pouco que seja, de exorcizar as tendências destruidoras e aprofundar os germes da verdadeira vida.

Durante muitos anos, ensinei a história num grande liceu parisiense. Não tentei converter meus alunos (poderia em virtude do meu dever de leigo), mas antes despertá-los, lhes colocar questões, de lhes colocar a caminho. Seus caminhos se aproximaram, por vezes, do meu, por vezes, se afastaram. Existem ofícios onde este testemunho indireto não é possível; mas pode sempre se exprimir nas relações de trabalho. A Liturgia torna-se o pôlo de nossa vida; a oração, que a interioriza, nos dá a fora de não sucumbir ao desencorajamento, à amargura, e por vezes de por um gesto, de dirigir uma palavra que os sentidos sugerem.

Não existe receita: é o próprio fato de estar na secularidade e a Liturgia que podem dar à nossa existência uma fecundidade inesperada. Existe também, em Sant´Egidio por exemplo, engajamentos sistemáticos na secularidade para portar este testemunho. Eu também vivi isto, trabalhando, ao lado de minha atividade profissional, a consolidar pequenas comunidades ortodoxas que nasceram em França e orientá-las ao testemunho e à partilha. Eis que tenho o sentimento de que meus alunos estavam interessados pelos meus cursos justamente pelo fato deles sentirem em mim outras preocupações, uma abertura sobre uma outra dimensão da existência.

A Bíblia não nos torna estrangeiros à história. Ela é, muito pelo contrário, uma fonte insaciável de interesse para tudo de humano. Ela é a fonte do desejo irrepreensível duma humanidade não humilhada, que aspira à plenitude e à divino-humanidade.

É Frederic Hegel que introduziu o jornal em nossa problemática história. Por ele, o Espírito, o divino se realizam na história, uma história cujo símbolo é o jornal. A leitura do jornal, dizia ele, substituiu hoje a oração da manhã (poderíamos adicionar que agora a televisão substituiu aquela da noite...). Depois, os teólogos tentaram arranjar as coisas dizendo que um cristão deveria ter a Bíblia numa mão e o jornal na outra.
  
Poderíamos primeiramente aprender a criticar a Bíblia pela história e a história pela Bíblia! Criticar a Bíblia pela história, é o imenso labor da exegese que estuda a dimensão humana da revelação, a produção dos textos nas estruturas psicossociológicas duma época. Nas estruturas e não nos textos produzidos pelas estruturas: pois o sentido último, a parte divina, poderíamos dizer, escapará sempre à história (e logo à exegese), para se desvendar no Espírito. Não é por nada que a última edição da Bíblia de Jerusalém dá em margem chaves de interpretação empregadas geralmente aos Padres da Igreja.

No fundo, são as mesmas buscas que encontramos quando se trata de criticar a história pela Bíblia. Precisa-se primeiramente praticar a história da maneira mais honesta possível, evitando toda explicação ideológica, por exemplo as infra-estruturas e as supra-estruturas da vulgata marxista, na medida em que todas as estruturas não deixam de agir umas sobre as outras. Não é uma abordagem que não seja indispensável (econômica, social, psicológica, religiosa) sem que nenhuma, nesta análise escrupulosa, pretende ter a última palavra. O modelo, para mim, é neste domínio a antropologia histórica e religiosa de Alphonse Dupront.

Aqui também, o sentido último, a “meta-história” como dizia Nicolas Berdiaev, pertence ao espiritual, por vezes visão global e ultrapassagem. Esclarecimento escatológico, na recusa de toda “reificação” pelo milenarismo ou messianismo.

Mas é necessário responder e não fugir. Ama a Deus de todo o teu ser, diz Jesus, e o próximo como a ti mesmo. E estes dois Mandamentos não deixam de fazer um. O homem, e em primeiro lugar o mais pobre, é o sacramento de Deus para o homem, explica a parábola do Julgamento no capítulo 25 do Evangelho segundo São Mateus. Cada vez que fazes concretamente o bem ao pequenino, é a Mim que fazes. Não podemos “contemplar” sem servimos o próximo: ver Deus sobre o rosto do outro, sobre este rosto pobre e nu, tão frágil (Emmanuel Levinas). Se, quando estás mergulhado na oração, disse um místico (Mestre Eckhart, penso eu), um mendigo vem te pedir uma tigela de sopa, não hesite, arranca-te da oração, prepara e oferece a tigela de sopa.

Reciprocamente, não há serviço do próximo sem abertura interior a uma outra luz que só pode evitar a usura, a lassidão, a amargura. Quem somente pode dar a imaginação de iniciativas inesperadas, geralmente tidas pelos outros como impossíveis. [...]

Existe em nossa sociedade uma grande incitação a pensar em nós mesmos. E unicamente a isto. É o único mantra que não abaixa a voz, nem mesmo nas grandes mutações nas quais somos mergulhados, aquelas da sociedade virtual, do frenesim das grandes cidades, do fim do otimismo que seguiu o 11 de setembro de 2001.

A fraternidade cristã só pode tomar suas distâncias com uma sociedade rápida, individualista. Ela implica a dureza e certo nível de comunhão. Ela implica reter-se face ao outro. A amizade é aqui uma dimensão fundamental. No Antigo Testamento “estar sem amigo” se aparentava a “estar fora de Deus”. O homem da sociedade liberal só tem raros amigos: ele tem relações, conhecimentos, dos quais se serve no melhor de seus interesses. Encontramos, aliás, no Antigo Testamento, notoriamente em Eclesiastes e no Livro dos Provérbios, uma concepção assaz semelhante da amizade: o amigo é um sustento, uma defesa, mas logo em breve tudo é levado por uma concepção espiritual da amizade. A linha horizontal, utilitária, é cortada pela linha vertical que designa a transcendência. Assim, ajudar um amigo é “uma oferenda ao Senhor” (Si. 14, 11), “o irmão confortado pelo irmão está firme como uma cidade forte” (Pr. 18, 19). Com a amizade de David e Jônatas, nos elevamos acima de toda concepção utilitária: “A alma de Jônatas se apega à alma de David, e Jônatas o ama com sua alma” (I Sm. 18, 1). Um elemento trágico aparecia, como uma antecipação da cruz.

Jesus realiza n´Ele a unidade de todos os homens. Esta unidade se exprime em diversos níveis de consciência e de intensidade para culminar nas amizades pessoais de Cristo, sobretudo com Marta, Maria e Lázaro. É significativo que o único adulto que Ele tire da morte seja um de Seus amigos pessoais, Lázaro. Na beira de Sua paixão, Ele chama “amigos” Seus Apóstolos. “Quando dois ou três estiverem reunidos em Meu Nome, Eu estou lá, no meio deles”. (Mt. 18, 20). A amizade aparece como uma expressão privilegiada da comunhão cristã. O que sublinha também o caráter pessoal e não simplesmente comunitário da amizade de Cristo, é que este envia os Apóstolos a levarem testemunho de dois em dois. [...]

É curioso de ver com que facilidade muitos dentre nós se privam do necessário. Não se trata de alimento, mas de oração que nos ajuda a nos reencontrarmos nós mesmos, a tomar distância e a nos aproximarmos da vida e das relações com os outros, na oração pessoal e na oração comum. É uma fonte de energia que não risca de se esgotar.

A oração abre o homem a Deus e logo abre a Deus a história. Ao mesmo tempo, ela permite ao homem de ser plenamente ele mesmo, posto que na profundeza de seu ser, ele está em relação com Deus, este Deus de Quem ele é a imagem. Assim, a oração não nasce de nós, mas ela nos é dada. O Espírito Santo, diz São Paulo, ora em nossos corações, murmurando “Aba, Pai” (Ga. 4, 6; Rm. 8, 15). Decerto, “não sabemos o que havemos de pedir como convém”, mas o Espírito “vem ao socorro de nossa fraqueza” (Rm. 8, 26).

Logo, a oração está sempre próxima de mim. Num certo sentido, minha própria existência é oração, mas de uma maneira inconsciente. Momentos de crise, paroxismos ou silêncio intenso, podem fazê-la surgir. A disciplina da Igreja, a oração da noite e da manhã, a eucaristia dominical, mesmo vividas numa certa aridez, contribuem a descarregar nosso coração desta chapa de distrações, de cuidados, que nos cortam de nosso precioso tesouro. A meditação, de preferência da Escritura, pode nos abrir ao sopro do Espírito (basta resistir à tentação de se comprazer nela mesma, numa sorte de fusão infantil...). A oração em comum, portada pelo canto, se ela não sucumbe ao ritualismo ou ao estetismo, é também uma via, importante. Nós somos chamados a tornarmos o que somos no fundo de nós mesmos – “orações vivas” (André Louf).

Decerto, na cultura atual, existe dificuldade em se recolher. Mas podemos nos impor, a cada noite, com a porta fechada o telefone desligado, alguns minutos de silêncio. Devemos distender nossa relação ao tempo, tomar, de longe em longe, o tempo de nos maravilharmos, de “fazermos eucaristia em todas as coisas” como demandava São Paulo. [...]

Vivemos num barulho ensurdecedor e por vezes nos tornamos incapazes duma palavra verdadeira sobre nós mesmo e sobre os outros, sobre a criação. Existe um silêncio ensurdecedor que se encontra no interior da vida justamente, o qual é necessário liberar.

A vida cristã confirma e se alimenta pela Liturgia. A palavra grega significa “a obra do povo”. Ela é em efeito comunhão que Deus nos dá na medida onde nós O acolhemos, escutando Sua Palavra, consumindo o pão tornado Sua própria vida. No coração de todo o desenrolar da Liturgia da Igreja, se encontra a Eucaristia e esta palavra designa nossa gratidão: eucharistô, em grego, hoje mesmo, quer simplesmente dizer “obrigado”.

Assim a Liturgia, fundamentalmente, celebra ela o Cristo Ressuscitado que o Espírito Santo torna presente dentre nós, Ele em nós e nós n´Ele. Todo ofício, por mais breve que ele seja, é um raio do sol pascal. Nós o acolhemos na amizade e na reconciliação; ele exige o “beijo da paz”. A Liturgia é necessariamente pessoal e necessariamente conjunto, para além de toda passividade e de toda solicitude. Ela oferece nossas preocupações e nossos sofrimentos, os apresenta ao grande sol de Deus que pacifica e cura, e nos dá a força – o pouco que seja – de pacificar e de curar. [...]

O mundo foi criado para tornar-se eucaristia. [...] Existe, no cerne das coisas, uma celebração muda. É ao homem que cabe este fazer ressoar. Deus, na Gênesis, lhe pede para “nomear” os vivos. Pois o homem é por vezes tanto do céu como da terra. E Deus lhe faz dom do mundo para que todos dois, Deus e homem, façam do mundo um imenso poema litúrgico. [...]

Cristo, dizia um grande místico bizantino do XIV século, Nicolau Cabasilas, não é somente a Cabeça, mas o coração da Igreja. Pela eucaristia, Ele torna-Se nosso coração. Neste coração onde o fogo habita a partir de então, é necessário que a inteligência da cabeça e o elã do éros se metamorfosem no cavidade crística. Então se abre o quê os ascetas chamam de “o olho do coração”, o “olho de fogo”, e este olho, este olhar, revela-se nos encontros humanos como nas relações entre o homem e o universo de imperceptíveis e portanto infinitas potencialidades eucarísticas. “Em qualquer condição, estejais na ação de graças”, quer dizer, fazei eucaristia, diz o Apóstolo (I Ts. 5, 18). Talvez seja a melhor definição da vida cristã.

Existe uma grande necessidade do Evangelho nas sociedades. Quanto mais ele parece ser o patrimônio de minorias, mais precisamos dele, não como necessidade de verdades opostas, mas muito mais além, como língua exprimindo o amor absoluto do pai pelo filho que dispersa todo eu bem e que permanece sem nada.

Na sociedade secularizada se desenvolvem em efeito simultaneamente fenômenos que parecem em contradição uns com os outros, mas que estão fortemente ligados: uma indiferença tingida de certa hostilidade para com o Cristianismo [...]; uma ideologia mercadora difusa que exalta a conquista e o dinheiro, o desejo e o prazer [...]; espiritualidades desenfreadas que põem o acento sobre o éros e o cosmos, sobre a meditação cientificamente levada [...], o ponto comum sendo a busca de estados fusionais, talvez cimo do narcisismo: a crescente oposição entre o Norte rico e o Sul pobre.

Neste contexto, o testemunho do Evangelho só pode passar pela consciência, a liberdade, o combate também por uma melhor repartição das fontes do planeta. Por exemplo e pela vida. [...]

É necessário, assim, ir em direção a uma santidade nova, aberta por vezes ao Espírito e à toda complexidade da vida social, cultural, cósmica. Mas, neste quadro, o testemunho exige também um profundo remanejamento de seu conteúdo. Nós assistimos a uma modificação fundamental na apresentação do Cristianismo. Uma reflexão renovada sobre o mal se impõe, sobre o Deus da kenosis, sobre a própria noção de todo-poder –e logo sobre o inferno [...] - , sobre a história e a escatologia, sobre o éros e sobre o cosmos, sobre a pessoa e a comunhão, à luz da Trindade que é por vezes plenitude da unidade e plenitude da diversidade. É necessário também uma reflexão renovada sobre a técnica: pois tudo que é possível não é um destino inelutável.


Os monges do Ocidente e do Oriente cristãos têm muito a nos dizer. Ele sabem os caminhos ao “lugar do coração”, mas colocam sempre a interioridade na perspectiva da comunhão, o conhecimento na perspectiva do amor. O rosto e o infinito partiram ligados. Torna-se, então necessário, sob o meu ponto de vista, assumir a busca do humanismo moderno, guardando, em contrapartida, a abordagem do mistério na interioridade, como nos símbolos cósmicos. Não existe oposição entre estes dois movimentos do coração e do espírito, mesmo se, no Ocidente, estamos habituados a uma sorte de separação natural entre o espaço de Deus e o espaço do homem, como se fosse possível traçar uma linha de demarcação. Mas se as vedações e as pretensões de encontrar Deus ignorando o homem ou aquelas de compreender o homem fazendo abstração de Deus se chocarem, descobrimos que o cosmos e a história têm lugar e linguagem possível de se encontrar.

Alguns extratos do livro de Olivier Clèment
SOP (Service Orthodoxe de Presse) nº 334, janeiro 2009

Os fundamentos teológicos da ética cristã

(...) Deus é o Alfa e o Ômega da vida humana, O Criador, o Redentor e a Realização última de toda existência pessoal. Toda pessoa é cr...