quarta-feira, 28 de junho de 2017

Afinal, Bob Marley foi ortodoxo ou não?


O fato da conversão do grande astro e pai do reggae, Robert Nesta Marley ao Cristianismo e a repercussão que um post tomou aqui no Brasil levou-me a dedicar um tempinho as seguintes linhas.
Bob Marley se converte ao Cristianismo em 1980, sendo batizado e aceite como membro da Igreja Ortodoxa Etíope de Tewahedo. Esta igreja faz parte do grupo das Igrejas Ortodoxas Orientais, incluindo ainda a Igreja Ortodoxa Copta de Alexandria, a Igreja Ortodoxa da Armênia, a Igreja Ortodoxa Siríaca, a Igreja Ortodoxa Malankara da Índia e a Igreja Ortodoxa Eritreana de Tewahedo. Estas igrejas são não-calcedonianas. O que quer dizer isto? Quer dizer que se separaram do pleroma da Igreja Cristã (ainda indivisa, no sentido do cisma de 1054) na altura do IV Concílio Ecumênico na Calcedônia, onde a heresia do Monofisismo foi condenada.
Templo etíope
Questões de ordem terminológica em função do dogma da natureza de Cristo implicaram em conflitos e por conseguinte no primeiro cisma no interior do Cristianismo. Vale também salientar a rixa das escolas teológicas de Antioquia e Alexandria e a tensa atmosfera gerada por opiniões divergentes.
clérigos etíopes
Quanto ao astro do reggae, sabe-se que sua mãe (jamaicana) lia frequentemente a Bíblia em casa e frequentava os serviços na igreja cristã com os avós. Seu pai era um ingles muito mais velho que a conheceu num de suas passagens pela Jamaica.
Bob Marley não se aproxima desta piedade vivida no seio de sua família em sua adolescência e vem abraçar o Rastafarismo enquanto adulto. Ele se casa com Alpharita Anderson (famosa Rita Marley) que também se converte aos Rastafari após a visita do Imperador etíope Haile Selassie I a Jamaica. Os rastafari adoravam Selassie como o Messias e Salvador. Bob Marley se dedica por inteiro a esta crença que misturava o uso da cannabis com filosofias do gênero, expondo suas crenças em muitas de suas músicas e principalmente em seu estilo de vida. Vale lembrar que as cores que remetem ao reggae são justamente aquelas da bandeira da Etiópia e não da Jamaica. A bandeira Rastafári leva as cores daquela da Etiópia mas estampa o leão de Judá, fazendo referência a figura de Haile Selassie, o Rei dos Reis, da descendência de David , fruto da relação da rainha de Sabá com o Rei Salomão.
Bandeira da Etiópia

Bandeira Rastafári

Bandeira da Jamaica
O Rastafarianismo, ou religião Rastafári, ou ainda movimento rastafári, foi um fenômeno da segunda metade do século XX que misturou elementos religiosos, políticos e musicais em torno da figura de Haile Selassié I (1892-1975) — imperador da Etiópia entre os anos de 1930 a 1974. Selassié considerava-se herdeiro direto do rei bíblico Salomão e da rainha Sabá, dos quais, segundo a tradição etíope, haveria se formado a dinastia salomônica que reinou naquela região durante a Idade Média. Seus seguidores consideram-no o próprio Jah, corruptela da palavra Javeh, isto é, o próprio Deus.

O imperador etíope ficou conhecido mundialmente em 1936, quando discursou para os representantes da então Liga das Nações a respeito do avanço dos conflitos e das teorias racistas que culminariam na Segunda Guerra Mundial. Sua postura contra a violência fez com que ele recebesse a denominação de Ras Tafari, que significa “Príncipe da Paz”. 

Bob Marley canta ao lado da figura de Haile Selassie e o leão de Judá


Os negros jamaicanos do início do século XX, descendentes de escravos africanos que foram levados para a Jamaica pelos ingleses, viam na figura de Salassié – o único rei soberano do continente africano – um caráter messiânico, ou seja, entendiam que sua realeza entre as nações africanas era a manifestação da divindade em sua pessoa. Essa crença em Selassié como sendo o Jah difundiu-se entre a população pobre jamaicana e tomou contornos bastante idiossincráticos nesse país.

Outras características do rastafarianismo são os hábitos alimentares, basicamente fundamentados no consumo de vegetais, leguminosas, frutas, etc., bem como o uso da marijuana (maconha) como elemento integrante do ritual rastafári. A fundamentação para esses hábitos, segundo os seguidores do rastafarianismo, está toda na Bíblia, em livros do Antigo Testamento.

Tal adoração a Selassie é um pouco irônica visto ser ele próprio cristao. O Imperador etíope pede até ao Arcebispo da Igreja Etíope de Tewahedo que se dirigisse a Jamaica para dar início a uma igreja que adorasse Cristo e não sua figura, com a esperança de que os jamaicanos passasem a conhecer Cristo. Tal Arcebispo – Yesehag – tornou-se a referência da missão da Igreja Ortodoxa Etíope em Kingston (capital da Jamaica). 
O próprio Arcebispo conta que Bob frequentava a igreja e ao expresser seu desejo em fazer-se batizar tenha sido alertado por pessoas influentes em sua vida professional ser um ato sem medidas, visto apresentar aspectos diferentes as crenças do Rastafarismo. Ele esperava o bom momento…


Muitos dizem que Bob ficou muito tempo fora da igreja, enquanto Rita com as crianças se convertem em 1972. Bob se encontrava sob os conselhos espirituais do Arcebispo mas somente é batizado pouco antes de sua morte, recebendo finalmente o sacramento na Igreja Ortodoxa Etíope em New York, sob o nome de Berhane Selassie – cujo significado exprime "luz da Trindade”.
Confira no You-tube o registro de seu funeral: https://youtu.be/8uhK4YVv_aw?list=RD8uhK4YVv_aw
por Monja Rebeca

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