sexta-feira, 7 de julho de 2017

A espiritualidade ortodoxa


Sobretudo, o que há de mais característico na piedade da Igreja Ortodoxa é o sentimento da irrupção vitoriosa da vida eterna, desde então, na carne: e isto é incompreensível, vai contra todas as possibilidades e contra todas as "leis da natureza"e é justamente lá que está a salvação. É realmente o sopro da mensagem primitiva que vive neste júbilo pascal da Igreja Ortodoxa...

Esta fé ardente e jubilosa, esta exultação pascal impregna toda a atitude religiosa da Igreja Ortodoxa, sua experiência, sua doutrina, sua oração. Harmonizam-se aqui um acento profundamente pessoal e coletivo (ao mesmo tempo) e ainda um acento cósmico: o que depende a salvação da criação. A vitória sobre a morte, já realizada em Cristo, concerne toda a criação, é o fato central e decisivo da história do mundo inteiro, motriz decisivo em suas diretrizes. Uma nova época começou desde o presente -ainda de uma maneira oculta - com a vitória de Cristo. Todas as forças do mal que ainda reinam no mundo, a morte, o sofrimento, a maldade, a princípio já estão despossuídas, abatidas, aniquiladas e arrasadas por tal vitória. Eis porque toda criação é convidada a participar do júbilo pascal...

O caráter cósmico da "Boa-Nova, a re-habilitação da criatura celebrada pela festa pascal e decorrente do fato da Encarnação da cruz e da Ressurreição do Salvador, não tem nada haver com um processo exterior ou "mágico"mas bem ao contrário, está unido de uma maneira indissolúvel à crucificação do "velho homem" à uma vida de tensão e de esforço moral, à ação regenerada e santificado do Espírito Santo. É o esforço incansável, o combate moral incessante que é preconizado pela Igreja. O inimigo principal é o nosso "eu" egocentrico, o nosso homem velho. Nao devemos nos compadecer dele, antes, pelo contrário, crucificá-lo, mortificá-lo em sua suficiëncia orgulhosa. Pois somos chamados a purificaçao nao somente de nossas açoes exteriores mais ainda mais de toda nossa vida espiritual, de suas próprias raízes, dos cantos mais ocultos do nosso ser moral... existe um acento de virilidade, de coragem e de sobriedade espiritual que penetra este ensinamento e esta experiëncia.

Todavia nao nos salvamos pelas nossas próprias forças - o que de perfeitamente excluído, pois fracos somos, e pouco resistentes, instáveis, impotentes, eis o dilema: somos chamados a sermos os guerreiros de Deus, somos chamados a virilidade, a coragem, a atividade, ao esforço e ao combate espiritual, e somos fracos impotentes, nao devemos nem mesmo ousar empreendermos este combate com as nossas próprias forças. Como sair deste dilema? ... a soluçao do dilema está na oraçao incessante, na incansável invocaçao de Jesus. Somos chamados a sermos ativos, mas só o somos pela Sua força, pois Ele é quem vem combater por nós e apoiar os nossos esforços. Logo, graça e atividade se aliam intimamente, indissoluvelmente nesta vida. Existem os dons do Espírito, a graça da perseverança no combate, a virilidade da alma, o heroísmo espiritual, o processo da santificaçao, da ascensao, que comeã desde entao e ao qual somos chamados desde entao. Mas tudo isto sao dons, emprestimos que veem do Espírito, os quais Ele pode retirar a cada momento. Nada é nosso. E de lá a humildade nas alturas da santidade.

Esta humildade nao é uma "virtude" que se adiciona, é a atitude inata da alma santa, que se vë na presença de DEus, que vë a sua pequenez e fragilidade próprias a ela, e a sua grandeza própria a Ele. Esta humildade é constantemente inculcada, com instancia, com força, por todo ensinamento moral e espiritual da Igreja do Oriente. É ela que resplandece com tanto esplendor, junto a doçura, a simplicidade, a benevolencia e ao espírito de medida e de equilíbrio, no rosto dos Padres do deserto e na personalidade dos grandes Santos e Justos da Igreja Ortodoxa.

por Nicolas Arseniev

Nenhum comentário:

Postar um comentário